2 de fevereiro de 2018 Creartcode

Escre(vi)ver em nome da mãe

Nos últimos tempos tenho conhecido novas escritoras. Que fique claro, novas ao meu conhecimento. Uma delas é Scholastique Mukasonga, uma africana, que esteve no Brasil no ano passado e tive a oportunidade de ouvir. Ela, voz doce e pausada, contava a sua história com uma serenidade que contrastava com o horror dos fatos narrados.

Mukasonga teve 27 membros da família mortos em 1994 no genocídio de Ruanda. Nessa época ela já morava na França, por isso sobreviveu e também por isso começou a escrever.

Ela nos conta que sua mãe costumava dizer que as filhas têm a obrigação de cobrir o cadáver de uma mãe, mas ela não estava lá, nem teve a chance de cobrir o corpo de sua mãe morta. Em suas palavras: “Ao escrever é como se construísse um túmulo de papel para todos aqueles que jamais terão um túmulo.”

O seu segundo livro chama-se “A mulher de pés descalços”. É um relato da sua infância e um reconhecimento da importante função da mãe na sua vida e de sua família. Ela mistura lembranças de um paraíso perdido a outras onde comparece um medo constante pela sobrevivência. O que me chamou a atenção foi o seu olhar de filha que em suas memórias resgata um aprendizado do feminino, um jeito de ser que lhe dá abrigo.

Ela conclui a introdução do livro assim: “Mãezinha, eu não estava lá para cobrir o seu corpo, e tenho apenas palavras (…) para realizar aquilo que você pediu. E estou sozinha com minhas pobres palavras e com minhas frases, na página do caderno, tecendo e retecendo a mortalha do seu corpo ausente.”

Mãe é uma função, basta ouvir ao redor, “gosto de Maria como uma mãe “, ou “mãe é quem cria”, ou ainda “Joana é uma mãe para mim”.

Nos ensinou Sigmund Freud, pai da psicanálise, que mãe é referência, é polo de identificação e objeto de amor.

Uma pergunta insistente não me sai da cabeça: O corpo da mãe está ausente, mas há cadáver de mãe?

Isso morre junto da pessoa que cumpriu essa função?

Ao falar de função materna Jacques Lacan, psicanalista francês, nos diz que sua função principal está em transmitir o que é da ordem da falta, do que lhe falta. Só assim permite que, com isso, uma singularidade se inscreva para cada um dos seus filhos.

Em seu livro, Mukasonga nos convida a entrar no seu universo particular e acompanhá-la nesse percurso da relação mãe -filha. A beleza do seu relato está em nos mostrar que para cada sujeito é necessário ir além da relação primeira com a mãe. Dar um passo para o mundo é tomar o caminho da palavra. A cada um de nós que nesse momento lê esse texto, foi necessário tomar a palavra para com ela se dizer Eu.

Ao fazer da falta da mãe a causa do seu desejo de se tornar escritora, ela nos aponta o que está na constituição de cada sujeito e nos mostra que a vida acontece apesar de.

 

Simone Aziz

Psicanalista

Tel: 2719-7091

E-mail: simone.aziz.psicanalise@gmail.com


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